Sábado, 19 de Novembro de 2011
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Sou a suma de tudo o que vi, de tudo o que cheirei, ou senti - sou todas as pessoas que existem e em todas elas estou.- se isto não for um lamento, o que será?



Escrito e publicado por Bruno Alves às 22:46
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Domingo, 30 de Outubro de 2011
as Mágoas das Chuvas de Inverno

Diz-se muito por aí que a chuva é boa p'ra cortejo e para lavar carros, eu cá nunca namorei à chuva, não vá lá apanhar uma virose ou outra coisa qualquer, que disso já experimentei e não havia remédio para descansar em paz. Da última vez de que me recordo de ver algo assim andava o petiz agarrado, como quem diz apaixonado, à moça enquanto eles iam passeio fora rumo a lado nenhum, até que ele a olha nos olhos, dá força ao impulso e todos nós sabemos o que se passou ali, mas longe não ficou o agoiro, pois quando os jovens se iam entusiasmado, lá veio uma velha anónima fechar as janelas e portas à chuva enquanto gritava ou reclamava - nunca se sabe bem a intenção - que poucas vergonhas eram aquelas, que descaramentos já tinha vivido que chegue.

A história que vos venho aqui contar também nasceu debaixo da chuva, sorte teve que o homem ficou imune a doenças mas não a mágoas. Fazia chuva, era lá para Novembros e já fazia escuro a meio da tarde, o frio já obrigava a casaco e as luzes nem sempre correspondiam às horas de escuridão passando manhãs acesas e noites apagadas. Lá Pedro estrada fora, por terreno e terreno, a correr, não poupando esforços, corria saltando uma poça aqui, outra acolá, evitando as lamas e afastando-se dos lençóis de água que descem o alcatrão (que se lhe elogie a agilidade!). O jovem esguio e matarruano correu campos à procura de abrigos já que as árvores não hesitavam em pingá-lo, pensando em que lados deixara o gado, mas teve que assim ser que parecia que o céu estava desabando em chuva sobre a terra, intercalando-se de uns trovões, assustando, mesmo que de longe. Finalmente, encontrou abrigo na oficina que cruzava a taberna da aldeia e ofegante lá espreitou e pediu por abrigo e descanso. Do escuro nasceu um vulto com a cara mascarada:

-Sente-se, homem! Faça disto sua casa, sente-se aí que já não é o primeiro que veio dos cabeços. - disse o humilde mecânico, limpando o suor com um trapo.

Certamente aquilo era uma oficina que apesar de pequena parecia já ter muitos anos de trabalho e facilmente se encontrava uma porca ou parafuso em cada canto da casa. As paredes estavam caiadas de preto e o lugar carecia de higiene mas não do cheiro a óleo e derivados.

-Deixei todo o gado p'ra trás, já nem sei por onde é que ele anda e o nem dá até ao fim do mês.

-Mais vale o gado que o corpo. - puxou outro modesto banco de madeira, calando-se.

A chuva, oportunamente, parou. O homem não saiu da cadeira.

 



Escrito e publicado por Bruno Alves às 19:33
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O que escrevo não é meu,

e de quem mais será;

quem foi que estas palavras teceu

que me embebedam de sentimento

e me fazem mover mares e montanhas

e do nada criar.

 

Que alguém me encontre por aí

que me dê sossego e conforto,

haja quem me afague,

alguém p'ra pôr fim a esta aflição

e, se por acaso alguém me encontrar,

que me diga quem sou.



Escrito e publicado por Bruno Alves às 19:05
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Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011
Metafísica à hora da entrada da lua

Eu, como homem que sou, sou um produto, desta realidade ou esta realidade é um produto de mim?



Escrito e publicado por Bruno Alves às 19:23
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Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011
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Esta democracia está cara demais, foda-se.



Escrito e publicado por Bruno Alves às 18:21
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Terça-feira, 30 de Agosto de 2011
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Para quem pensa que uma revolução é complexa;ela não o é. É só dizer não.



Escrito e publicado por Bruno Alves às 00:37
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Domingo, 21 de Agosto de 2011
I

O candeeiro da rua reforçava a luz do luar num espaço do passeio onde se conseguia ouvir o jazz nocturno que ressoava no bar mais próximo e um banco ali ao perto, de madeira tingida de verde, ficava também iluminado pelos raios colaterais e também iluminado ficava o rígido homem que ali passara. Não tinha grande estatura nem interesse no que se rodeava. Passou naquela luz sem tirar os olhos da imaginação e assim passou na próxima e na que se seguia. Caminhava numa determinação cega, coberto por uma gabardina que lhe dava um ar de anónimo, respirando tabaco.

Atravessou a cidade e sentou-se.

Frank não era homem de grandes amizades mas era homem de grandes quantidades de álcool. Por vezes perguntava-se se não começara já a mijar álcool em vez de urina. As conversas com desconhecidos eram ocasionais e não eram levadas com grande interesse. Não lhe interessava saber das reacções, dos gostos pessoais alheios ou até das memórias de infância. A sua companhia chegava-lhe, acompanhando-lhe uma solidão que fora cultivada há largos anos.

De repente, veio uma voz que lhe surpreendeu:

- À espera da madrugada? - disse-lhe um vulto que surgia da escuridão tomando a forma duma mulher de aspecto atrativo e, rodeava-lhe também uma certa solidão, porém, disfarçada pela sua delicadeza noa movimento.

- À espera que a vida se lembre de mim. - disse, soltando um ligeiro suspiro que causou um sorriso subtil de resposta.

- Aceita uma bebida?

- O que me levar a filosófo ou à felicidade.

Assim, levantou-se ele, começando a andar paralelamente a ela. Fizeram o caminho de volta, cruzando a cidade e entraram no bar de jazz. Já em conversa animada, ela pediu um copo de gin e outro de whisky. Segurou o gin e esperou por Frank. Ele empunhou-o e brindou:

- A Deus, por nos amar a todos. - despejando no momento a seguir a asquerosa e amarga bebida pela goela abaixo.

- E ao diabo. Por nos amar também.



Escrito e publicado por Bruno Alves às 22:10
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Quinta-feira, 18 de Agosto de 2011
França

Quando nos intervalos da normalidade soavam as baladas dos sinos do campanário começava-se a cultivar um período de silêncio e reflexão, por vezes acabando em sono pelos que não aguentavam o cansaço nos olhos. Lembro-me de acontecer três vezes no dia, representando, para os mais atentos, o horário solar, tanto como o seu aparecimento, como o seu auge e o seu desaparecimento. Eram momentos de introspecção, onde os mais indecisos decidiam o que fazer num futuro próximo e os eternos sonhadores mergulhavam em momentos de fantasias pessoais futuras ou em extensões de memórias redimidas. Eu, porém, mergulhava nos dois ao mesmo tempo, acabando o primeiro por não ter qualquer efeito pois lá sabia (determinadamente) o que haveria de fazer quando chegasse o tempo de algo ser feito e estava confiante nos meus projectos pessoais. Nunca fui muito bom a fantasiar mas o lugar dava-me sempre alguma inspiração para criar histórias de acasos amorosos ou de desastres brutais e épicos.

Lembro-me também da paz de espírito e da calma que me rodeava ou que eu dava ao ar que me rodeava. Via além das aparências e das banalidades, geralmente era ilusão, mas servia para o momento. Não há lugar que eu conheça que se deva comparar àquele lugar sobrenatural; sobrenatural não digo, era natural, dado que todos os outros lugares nem de naturais podem ser caracterizados.



Escrito e publicado por Bruno Alves às 23:28
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Terça-feira, 16 de Agosto de 2011
Ela e o Zé

Vinha-lhe à memória a fragância dos ventos que sobrevoavam os telhados da sua antiga aldeia, causando-lhe uma nostalgia extremamente inquietante.

Ela sentava-se no café à beira da estrada, de semana, expecto feriados, onde já tinha lugar marcado. Lembrava-se de em tempos ter percorrido estradas e estradas, rodeadas de paisagens intocáveis e virgens, tanto banhadas pela claridade dos raios solares como banhadas pelo luar. A linha do horizonte causava-lhe sempre uma especial intriga. Mas toda a recordação se desvanecia quando chegava o empregado, José Vitorino de nome, Zé por amizade e tenente José Martins Vitorino nas cartas de guerra.

Tinha-se criado uma especial empatia entre os dois. Talvez por serem os dois sedentários, perdidos na própria rotina. Ou então por serem dois seres da natureza à procura de conceber e à procura de afecto e conforto no calor humano.

-Aqui está o seu pedido.- avançou José Vitorino.

-E se o café me afastar do sono, serei eu mais cega por não poder sonhar?

Num pensamento instantâneo, seguido de um sorriso interior retorquiu:

-Mais vale ter os pés no chão, pois sabe que daí não passa.

A mulher levantou-se, depois de acabar o café num gole e seguiu o seu caminho. O reformado de guerra, limpou a mesa e arrumou a cadeira.

No dia a seguir, ela não voltou.



Escrito e publicado por Bruno Alves às 23:36
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Quinta-feira, 4 de Agosto de 2011
MPN

É estranho, olhar para o nosso passado e vermo-nos no início nómadas selvagens e sádicos e acabarmos em conformistas sedentários e inertes a qualquer luta que haja para se travar. Porque o movimento da sociedade está quando a minoria se impõe, para o bem ou para o mal e os outros vão atrás do osso. A sociedade é compostas maioritariamente por números. Deixa de ler isto e vai fazer o que tem que ser feito. Luta pelo que acreditas e ajuda os outros a acreditarem no que lutam. Um homem passa a ser Homem quando deixa de ser parte da sociedade.

 

Agora ou luta ou finge que não viste isto e continua a morrer sentado.



Escrito e publicado por Bruno Alves às 23:43
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